domingo, 30 de agosto de 2015

"Animação Cultural" de Vilém Flusser

Menor que o mundo

Um copo meio cheio? Um copo meio vazio? O vazio de um ponto de vista. A vista cheia de pontos - pixels. O ser humano que usa o objeto ou o objeto que usa o ser humano? Prefiro pensar que há um uso recíproco, um sistema, uma colmeia dependente dos componentes conscientemente inconscientes. Sim, nós, "humanos máquinas" dominamos as máquinas humanizadas que nos dominam.

Permita-me, caro camarada, uma releitura de Oswald de Andrade:
                            
                             Quando o homem criou o objeto
                             Debaixo duma bruta chuva
                             Vestiu o mundo
                             Fosse uma manhã de sol
                             O mundo tinha despido
                             O homem.
                             Que pena!

Sejamos, então, caros camaradas, bem vindos à realidade nublada... Realidade esta que gera questionamentos volúveis pela sua solidez, concretos pela subjetividade. Afinal, a crescente dependência entre o homem e o objeto é motivo de preocupação ou alívio? Há quem pense que o objeto conspira contra a existência humana, contribui para uma desordem ordenada, cabeça alienada, mentalidade conturbada.
Todavia, meu texto não permite tamanha hipocrisia. O homem que cria é o homem que comanda, é o homem que encanta, é o homem que homem. Se existe algo "torto" para nos destruir, saiba que este algo nao será o objeto linear, e sim o próprio ator que entorta, destorce, deforma, conforma e adorna a realidade. Este ator, caro leitor, é o senhor.


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